Suspeita não é sentença: o risco da justiça pelas próprias mãos
Um homem foi espancado até a morte por suspeita de furto que nem era verdadeira. Por que a suspeita nunca pode substituir o devido processo legal.
Como quatro pessoas comuns chegam ao ponto de espancar um homem até a morte por causa da suspeita do furto de uma bicicleta?
E o mais assustador: a suspeita estava errada.
No Rio de Janeiro, um homem foi espancado após ser acusado de furtar uma bicicleta. As imagens mostram que ele praticamente não reage às agressões.
Depois, descobriu-se que a bicicleta era da própria família.
Esse episódio revela um fenômeno extremamente perigoso: a justiça com as próprias mãos.
Tudo começa quando a suspeita vira certeza: ele é ladrão.
Depois vem a desumanização: bandido merece apanhar.
E, em grupo, a responsabilidade se dilui. Um agride, o outro acompanha, e cada agressor passa a legitimar a violência do outro.
Mas existe um detalhe ainda mais perturbador: as agressões foram gravadas e compartilhadas.
A violência deixa de ser apenas punição e se transforma em espetáculo.
O agressor passa a se enxergar não como criminoso, mas como justiceiro, alguém que estaria protegendo a sociedade.
É exatamente por isso que existe o devido processo legal.
Porque suspeita não é prova.
Acusação não é condenação.
E cidadão nenhum tem o direito de escolher quem merece ser punido.
Nesse caso, uma suspeita de furto terminou com um homem morto.
Quando a sociedade aceita a justiça pelas próprias mãos, qualquer inocente pode ser a próxima vítima.
Se você acredita que justiça não pode ser confundida com vingança, comente aqui.
Flávio Prado, advogado criminalista, OAB/MG 232.849. Este conteúdo é informativo e não substitui a análise do caso concreto.